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 EDUARDO CARVALHO
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Em - 05/09/2008 15:16
Em cartaz, as sublimes estrelas da Portela

Tem uma cena - ou seqüência, como preferem os cineastas - em "O Mistério do Samba" em que a Velha Guarda da Portela, protagonista do filme, faz uma pequena roda de samba num botequim de Oswaldo Cruz. A câmera, posicionada no interior do bar, enquadra ainda a calçada e a rua, tranqüila, ao fundo. De repente, uma senhora que passa pára, olha e, num gesto absolutamente espontâneo, samba no pé, miudinho, sorrindo. Ao terminar, ela meio que abre os braços, agradecendo e se despedindo dos velhos que tocam e cantam, e segue o seu caminho, sumindo da tela.

Teve um crítico de um grande jornal que, apesar de elogiar o conteúdo do filme, as músicas e a Velha Guarda em si, terminou seu texto dizendo algo assim: "(...) como filme, no entanto, não chega a lugar nenhum". Eu acho que chega, sim. E a muitos lugares. Mas isso é o que menos importa.

O que importa é que "O Mistério do Samba", de Carolina Jabor e Lula Buarque, é um filme lindo, impossível de ser descrito em palavras. É uma declaração de amor tão bonita a uma parte belíssima da história do samba - a Velha Guarda da Portela - que a gente nem quer saber se é filme, se é novela, se é peça, muito menos se ele chega ou quer chegar a algum lugar.

Bobagem. A gente quer é viver aquilo com plena intensidade, quer é voltar no tempo e nascer de novo. E agradecer aquelas pessoas por elas existirem e, com a sua música, tornarem a vida da gente muito, muito melhor. A senhora da calçada, se for ver o filme, também não vai querer saber se ele "chega" a algum lugar - tenho certeza. Um dos grandes méritos dessa obra, meu caro crítico, é exatamente não chegar a lugar nenhum. A grande bola dentro é ser "invisível" como linguagem cinematográfica, ou seja, é deixar a Velha Guarda e suas histórias se contarem, singelamente, e só.

Em que pese a (óbvia) necessidade de edição - ou montagem, no vocabulário dos cineastas -, esse é um filme puro. Isso, puro. Ou, como me disse o meu amigo Bruno Quintella: "Assim como um bom samba, ele é despretensioso e genial".

Não se enganem. "O Mistério do Samba" não desvenda o mistério do samba. Ainda bem. Ele mexe com a alma de todos nós, que ficamos ouvindo, em nossos peitos e mentes, um sussurro a perguntar assim: "Como pode?".

Como é possível haver letras e músicas tão bonitas, ao mesmo tempo tão simples e tão profundas? Não há respostas. Mas a sabedoria, a vivência, a atitude que aqueles personagens reais têm diante da vida, do mundo, da sua arte, valem muito mais do que qualquer "instrução formal".

Essa beleza aguda e despretensiosa está em cada imagem, em cada fala. É uma riqueza que transborda da tela, a toda hora. Como, por exemplo, na cena antológica em que Monarco relembra trechos de um samba esquecido de Manacéa, ainda não gravado à época da filmagem; ou quando Jair do Cavaquinho conta como fez "Meu barracão de zinco" ("Quando terminei, vim pra casa e pensei: agora só falta um laraia-laiá pra fazer as pastoras levantarem a saia e cantarem com tudo!"), esse clássico que tem um dos mais poderosos laraiás do samba.

Os dez anos de filmagens ajudaram os realizadores de "O Mistério do Samba" a captar e a transmitir com a delicadeza e a ternura necessárias os muitos mistérios daqueles sambas, nascidos - como seus autores e cantores - nos subúrbios e na pobreza tão carioca e tão brasileira. As estrelas da Portela estão à vontade.

Jair do Cavaquinho, Argemiro Patrocínio, Monarco, Casquinha, Serginho Procópio, Cabelinho, Surica, Doca, Eunice, Áurea Maria - e, em espírito, Manacéa, Aniceto, Mijinha, Alberto Lonato e Paulo da Portela, entre tantos outros - são todos grandes, imensos artistas. Salvos pelo samba, é pelo samba que eles nos salvam, a cada nova batucada, das pequenezas do nosso dia-a-dia sem arte.

A gente já sabia, mas como é linda a música criada e cantada por aqueles operários, feirantes, contínuos, marceneiros, cozinheiras, na dignidade em que vivem! Como sempre fizeram, continuam embalando o samba, a matriz da grande música do Brasil, desde os seus quartos pobres, quintais, bares, chinelos e sapatos, de suas cervejas, comidas feitas com amor e janelas dando pras ruas e tardes do subúrbio hoje tão maltratado.

Ainda bem que, com a mesma intensidade com que marca os rostos e as mãos de todos aqueles sambistas, o tempo não se cansa de realçar a beleza incomensurável dos seus sambas.

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