A noite de segunda-feira de carnaval está apenas começando. Enclausurado em uma cabine de rádio, diante do setor 01, vejo diante de mim a última alegoria da Mocidade. Durante todo o desfile que agora se encerra, meu olhar racional buscou analisar friamente o desempenho da escola, tendo como referência seus últimos carnavais. Em minha mente está vivo o fiasco de 2009, e, apesar da certeza de que ele não se repetiria, era inevitável estabelecer paralelos e comparações. Com a gélida responsabilidade de analisar um desfile, vi a bandeira verde e branca flutuar pela avenida. Vi passistas de verdade, que sambam com raça e prazer. Vi, acima de tudo, componentes alegres e felizes, evoluindo e cantando com sorriso no rosto. Vi a arquibancada, normalmente tão gelada quanto o meu olhar, refletir o brilho que emana da pista. Naquele instante, uma forte claridade cega meus olhos.
O intenso brilho da estrela ofusca qualquer paradigma. Aquece a razão e exacerba as sensações. Sinto pelos demais sentidos, que, ignorando a retina, fazem minha mente buscar as referências para a compreensão do que estava diante de mim. Então, traduzidas pelas minhas lembranças, novas imagens são formadas. Vejo "Ziriguidum", "Tupinicópolis" e outros inesquecíveis enredos de Fernando Pinto. Vejo novamente os grandes carnavais do Renato Lage, como "Vira-virou" e "Chuê-Chuá". Vejo-me na quadra de Padre Miguel em uma noite de sábado, programa que, confesso, fazia com bem mais assiduidade na década de 1990.
Minha mente vai mais alem. Ela me faz enxergar o esforço de quem transformou um time de futebol em escola de samba. Vi a luta do povo de Vila Vintém para criar uma grande agremiação, competir com as demais, vencer! Vi a bateria genial de Mestre André fazer história. Nada disso eu havia visto com meus próprios olhos. Tudo era saudade de algo que jamais havia vivido. Naquela fração de segundos, vendo as últimas alas passarem, a luminosidade transpôs a tênue barreira que procurava resguardar minhas emoções. É a estrela que brilha e impõe a sua verdade!
Ao contrário do que dizem os cientistas, as grandes estrelas jamais perdem o brilho. Elas continuarão a nos aquecer e iluminar por toda a eternidade. É provável que a infeliz racionalidade os tenham induzido ao erro, mas talvez eles simplesmente desconheçam você, estrela da Mocidade, e a sua capacidade de ofuscar a razão. Se pudessem, ao final de um desfile, comprovarem que a sua essência é atemporal, concluiriam que as grandes estrelas merecem, antes de qualquer coisa, serem tratadas com respeito. Na verdade, despertando o espírito folião em suas tristes almas, deveriam expressar também uma boa dose de admiração, pois teu brilho, estrela da Mocidade, é luz que sempre iluminará a quem ama o carnaval.